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O Ouriço

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O bafo de Pégasus

John Wolf 14 Jan 12

 

A equitação académica encontra a sua expressão num percurso histórico interessante. O homem das cavernas incluía na sua dieta o antepassado do cavalo moderno; na idade média o equino servia os propósitos bélicos dos nobres, nas inúmeras guerras que sobretudo avassaláram a Europa; os séculos XV e XVI e os que se seguiram representaram épocas de refinamento da arte de cavalgar em guerra, no contexto do advento da arma de fogo. O cavalo foi fundamental nos sucessos militares e uma consequência natural foi o aparecimento de academias equestres um pouco por toda a Europa. A Áustria por vontade dos Habsburgos instituiu a Escola Espanhola De Viena, em França o Cadre Noir instalou-se em Saumur e em Portugal a Academia Equestre existiu até 1807, altura em que foi encerrada devido às invasões napoleónicas. O Museu dos Coches era o Picadeiro Real e o turismo agradeceria que voltasse a sê-lo. A Academia Equestre de Portugal achava-se instalada no edifício que hoje corresponde ao museu dos coches. A tradição equestre portuguesa representa um Ex-libris cultural sem paralelo em todo o mundo. Com o decorrer dos tempos, a academia portuguesa foi relegada para segundo plano e mais recentemente, devido ás vicissitudes politico-culturais impostas pela ignorância dos governantes que não entenderam a importância desta forma de expressão cultural. A Escola Portuguesa de Arte Equestre, que comemorou há poucos anos 25 de existência, numa gloriosa gala realizada no Pavilhão Atlântico, tem a sua sede no Palácio de Queluz. Para ser mais preciso, numa dependência do palácio. Os cavalos são treinados ao ar livre e as condições gerais de funcionamento da escola são indignas quando comparadas com as infraestruturas que assistem a Escola Espanhola de Viena. Uma dezena e meia de cavaleiros mantém vivo um estilo de equitação que apenas se transmite de mestre para aprendiz num processo lento de depuração cultural. Uma tradição cultural alicerçada num dos mais importantes tratados de equitação do séc. XVIII - A Luz da Liberal e Nobre Arte de Cavallaria - de Manoel Carlos de Andrade. O sonho, embora maltratado, continua a ser, regressar ao Picadeiro Real de Belém, a casa original da academia equestre, aonde regularmente seriam apresentados ao público espectáculos de rara beleza, mas a batalha tem sido longa correndo-se o risco de passar de cavalo para burro. Um país que não sabe aproveitar a sua matriz cultural exclusiva, dificilmente conseguirá vencer na arena económica. À laia de curiosidade, para se poder assistir a um espectáculo da Escola Espanhola de Viena, é necessário efectuar uma reserva com meses de antecedência tal é o interesse dos espectadores, dispostos a pagar alto por um ingresso.

Os argumentos que contradizem o sonho são multíplos mas injustificáveis. Forças políticas opõem-se ao projecto. Há quem tenha afirmado que o cheiro dos cavalos, uma vez instalados em Belém, chegaria à sala de visitas ou à cozinha do palácio presidencial ou que o bafo dos cavalos iria concerteza deteriorar as pinturas que se encontram nas paredes e tectos do picadeiro; há quem diga ainda que os coches ainda merecem a sala de estar que presentemente ocupam. Pergunto-eu e talvez com razão: será que o bafo de Pegasus é assim tão forte? Ou seremos indignos porque não reconhecemos a nossa cultura e a nossa história?

 

Camões também montava a cavalo. 

 

(publicado há vários anos no blog Abemdanação, e na revista Cavalo) 

 

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