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O Ouriço

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Clemência literária

John Wolf 21 Fev 12

Sei que é Carnaval, mas a literatura não pode tornar-se refém de uma fé apenas. Se a conferência de abertura do Correntes d´Escritas 2012 é proferida pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente, pergunto, em defesa da universalidade literária, onde se encontram, por exemplo, o Imã muçulmano ou o rabino hebreu?

 

http://www.cm-pvarzim.pt/groups/staff/conteudo/noticias/programa-do-correntes-d2019escritas-foi-apresentado-esta-manha

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Em 1881, ao escrever que “a luta religiosa em Portugal é uma questão de vida ou de morte para a nossa nacionalidade” Teófilo Braga dava um passo decisivo para promover para a religião civil republicana em Portugal, num processo que deve ser comparado com a Kulturkampf, o conflito cultural contra as Igrejas desencadeado por Bismarck no Império Alemão recentemente criado,  e com o anti-clericalismo educativo e ideológico da Terceira República Francesa.

 

De entre as inúmeras obras de propaganda republicana, começo por respigar algumas citações de autores relevantes que constituem outras tantas fórmulas da religião republicana . Veja-se a obra de Fernão B. Machado a propósito da obrigatoriedade do registo civil e do reconhecimento de que só o Estado deve possuir o registo dos nomes de todos os seus cidadãos: “O Estado, ele só, é o patrono nato dos direitos civis e políticos de cada um”. No mesmo ano, Miguel Bombarda escreve o seguinte: “A criança nem ao pai pertence. Só ao Estado compete formar os espíritos. Só a ele pertence modelar as forças vivas da nação. Só ele sabe fazê-lo e só ele tem recursos para o fazer”. Ainda em 1908, no jornal A Luta, Álvaro Marinha de Campos, que viria a assumir funções governativas, escreveu: “Felizmente a ciência e a democracia vão realizando em poucos anos a obra que o cristianismo não pôde levar a cabo em muitos séculos”.

 

Tais afirmações são sobretudo programáticas, como se sabia no próprio movimento republicano, em particular no PRP, antes e depois do 5 de Outubro. João Chagas escreve em 1909 que “o povo não está feito e fazê-lo não é ressuscitá-lo. Ele nunca existiu. Na realidade, só a República lhe pode dar nascimento”. Nos mesmos termos, lembrará João de Menezes, um dos constituintes de 1911: “É a República que há-de fazer os republicanos”.

 

E o discurso culminante da religião civil republicana veio a ser a intervenção de Afonso Costa, em sessão realizada em 26 de Março de 1911 no Grémio Lusitano, reproduzida nos jornais O Tempo, o Século e o Mundo do Dia Seguinte “O povo português está admiravelmente preparado para receber a lei da separação das Igrejas e do Estado, e a acção dessa medida será tão salutar que em duas gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu”. Em torno desta transcrição gerou-se uma polémica sobre o seu exacto conteúdo e alcance. Surgiram várias versões, uma delas afirmando até que Costa referiu “três gerações” e não apenas “duas”, correndo esta acabando mais tarde o próprio por se desmentir a si próprio. Tais afirmações acabaram por permanecer a fórmula mais sucinta da obra legislativa anti -religoda da 1ª República. 

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Canibalismo

John Wolf 11 Jan 12

Assistimos ao despontar de uma nova era. Um festim de tira-teimas e ver se te avias. A derradeira montra das setas atiradas ao lado. O cúmulo da falsa tolerância. A viagem de um comboio sem maquinista. A expressão máxima do sistema de castas (de castings!) que morde o calcanhar de um Aquiles coxo. Meus senhores, e minhas senhoras, o espectáculo já começou. E é um circulo de feras que rodopia, enquanto se morde a cauda destapada e à vista de todos. A estreia de um exibicionista vulgar embandeirado num arco irrisório. Está aberta a estação. Abriu oficialmente a época de caça, de canibalismo desenfreado, irracional, sem utilidade aparente. A consanguinidade cultivada sem vergonha na escala do poder, no partidarismo, na cultura, nas artes, nas amizades convenientes, nas falsas amizades, comprada com pilim sujo, vendida por divisa igual, tinha de dar nisto. No descalabro, uma salganhada poupada para este momento auspicioso que reabilita velhas guerras, dissabores e enteadas. Toca a bater a torto e a direito, que assim se chega ao sagrado, à flagelação pelos altos e baixos da fé. Oremos sem dor. O que nos resta agora no novelo de desperdícios. A dignidade, já não sei. Ainda a missa vai no adro. Ainda a mossa é pequena. Venha de lá o seguinte. Façam girar a tômbola, e às escuras com um foco intencional levantem do chão uma nova inquisição. Vida de cão. Talvez seja preferível.

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