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Blogosfera que Pica
Jack Soifer 7 Nov 12
Desconfio quando uma instituição dominada por lobistas diz ser solidária. Os experts da Comissão Europeia não querem perder os seus privilégios e bons salários. Nem que os seus amigos tenham o salário reduzido ou a atual estrutura de poder questionada.
Eles lembram-se ou leram o que ocorreu nos EUA com o massacre aos jovens, durante a guerra do Vietname. E como esta revolta acabou por levar ao poder Kennedy que, assassinado, deu origem a um movimento que, pela primeira vez na história de uma democracia, obteve o impeachment de um Presidente, o Nixon.
Eles lembram que a rigidez da CCE e dos lóbis que não permitiam inovações técnicas nem sociais trouxe a Revolução Estudantil de 1968, em Paris. A atual situação social, política e económica aponta para que, ainda este ano ou em abril de 2013, os jovens desempregados iniciem uma revolta que focará na atual estrutura de privilégios de alguns bancos estrangeiros, e de algumas megaempresas.
Assim, Durão Barroso tirou um coelho da cartola e oferece umas migalhas para mitigar o desastre que assolou a UE e vai piorar em 2013. Ao criar um buffet com trabalhos provisórios e estágios para jovens, até as eleições na Alemanha, espera Barroso poder então ter um outro Chanceler, disposto a ouvir em vez de ordenar, como a Frau FerroStaal agora faz.
Não creio que os jovens de hoje deixar-se-ão iludir com as belas palavras do Herr Durão Raposo. Pois ao lado dos jovens encontra-se por toda a parte, não só nas ruas, o raciocínio dos maduros desempregados, dos reformados prejudicados, dos economistas de tanto alertar, já cansados.
Quando em mar/10 no Prós Contras alertei que já estávamos em recessão a caminho de uma depressão, que precisávamos sair do euro, chamaram-me de pessimista.
Quando antes do acordo do governo português com a Troika escrevi que precisávamos de uns 160MM€ e 8 anos para o reequilíbrio, fui chamado de extremista.
Agora até o The Economist deu-me razão. Quando em 2010 insisti no Euro-M, mediterrânico, temporário, uns 20% desfasado do Euro-N (Norte-Europeu), até Grécia, Itália, Espanha e Portugal recuperarem o equilíbrio orçamental e a competitividade, quase perdi dois amigos.
Hoje temos estes países a pagar 6 a 9% de juro pelos empréstimos que a Alemanha, França e Holanda pagam 0 a 1%. Não é o mesmo euro, não é a mesma UE? Na prática o nosso euro emprestado já se desvalorizou uns 8% e a situação piora!
Quando no início do ano escrevi que o ministro das finanças, Vítor Gaspar, era otimista quanto a receita fiscal, chamaram-me de pessimista.Não só a equipa dele não considerou todos os fatores cíclicos, mas também esqueceu a economia paralela a crescer; e vai piorar. E um consultor experiente não pode dizer “o que foi que eu disse?”
Aprendi cedo: “Errar uma vez é humano, duas vezes é burrice, três é estupidez”. O novo erro da receita fiscal publicado esta semana é o terceiro!
Portugal não exportou mais em 2012, como dizem. Saíram 350M€ legalmente, o dobro ilegalmente, em ouro das famílias. É património dilapidado!
Jack Soifer 7 Nov 12
Vimos na TV as chamas no quase novo centro comercial de Portimão. Não deveria arder! Uma construção nova deve seguir as estritas regras de materiais, distâncias, etc, que mesmo que uma das lojas comece a arder, sprinklers, portas blindadas, tudo impede a sua propagação às vizinhas. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, dizia Hamlet. E se calhar, não só lá.
O pior ainda vai acontecer. Pois as grandes superfícies, em especial as que pertencem ao que se diz ser o maior grupo empresarial do país, após a construção arrenda espaços nos corredores, inicialmente calculados e aprovados pelos bombeiros sem esses stands, para permitir a rápida evacuação dos clientes, num caso de incêndio com elevada propagação.
Seja em Portimão, em Albufeira, Guia e até no Alentejo, de onde é a foto, vê-se temporários arranjos de bicicletas, prendas, brinquedos, produtos de beleza, etc que dificultam a evacuação do local. Como o proprietário sabe de antemão quando haverá a inspeção dos bombeiros, atravanca quando eles lá não estarão.
Em Gotemburgo, Suécia, há uns 18 anos, morreram uns 200 jovens quando num incêndio, viu-se a porta de emergência bloqueada. Todo o sistema de controlo foi alterado e hoje qualquer pessoa pode telefonar para um número central no país, que envia um fiscal sem uniforme em poucas horas. Após a primeira multa, a grande superfície perde para sempre o seu alvará naquele município.
Na Índia e no Paquistão fazia-se o que se faz por cá. Após a morte de 300 em cada país, há novas regras de controlo. Parece que estamos pior do que eles, nada aprendemos com os desastres e as regras só aplicam à inauguração.
Se o incêndio daquela madrugada, em Portimão, tivesse ocorrido num sábado à tarde teríamos 300 não só desempregados, mas já mortos.
É ao ver este “posso, quero, mando” que os estrangeiros do Algarve estão a ir-se e nenhum investidor tecnológico, que poderia aumentar o emprego aqui, tem a coragem de cá investir. Porquê? Leia no Como Sair da Crise, Algarve!
Mendo Henriques 6 Nov 12

PGL - Os estudos do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), apresentados no I Congresso Mundial de Empresários das Comunidades e Lusofonia, estão finalmente em livro. As investigações foram baseadas em informação disponível ao público e obtida a partir de diversas fontes, incluindo meios de informação especializados, fontes oficiais e outras consideradas credíveis.
O livro indica a existência de mais de 250 milhões de falantes nativos de português, residentes nos 8 países de língua oficial portuguesa, o que representa 3,66% da população mundial e 3,85 do PIB do mundo.
Na avaliação do peso económico da língua, a obra dá atenção ao efeito da língua no comércio externo e no investimento direto estrangeiro, à influência na economia dos fluxos migratórios e o turismo, e ao valor das indústrias culturais, que, conforme dados de 2008, representa 2,8 de toda a riqueza criada em Portugal.
Mendo Henriques 6 Nov 12
Estamos a chegar ao Estado Zero
A crise portuguesa demorou anos a desenvolver-se e demorará anos a resolver-se, parece ser uma primeira apreciação para quem não está doido ou toldado pelos interesses instalados. Agora é urgente fazer a troika perceber que o país precisa de tempo, precisa do seu tempo. É verdade que Portugal jamais conseguirá pagar a divida soberana, segundo os termos acordados com a troika, caso persista a horrorosa alta de impostos criadora de recessão. Também é verdade que não o conseguirá fazer, de forma sustentável, se não elevar o nível dos impostos, cobrando a quem foge ao fisco, cobrando as transações financeiras e cobrando outras formas de riqueza e consumo ostentatório. Só com a baixa dos impostos, virá o aumento da produção e competitividade e, este aumento permitirá, a seu tempo, escalonar o pagamento da divida. É fundamental que o governo se imponha em relação à divida e que não coloque em causa a dignidade do povo português. Senão estamos a chegar ao Estado Zero, que já nem sabe o que quer nem porquê. E esta falta de credibilidade alimenta a paralisia interna e afasta os interessados do exterior.
Faust Von Goethe 5 Nov 12
John Wolf 5 Nov 12
Passos Coelho quer refundar. Barack Obama deseja fundar. A poucas horas das eleições presidenciais Norte-Americanas, penso sobre o que distingue um político de um estadista. Penso sobre o que constitui uma visão duradoura fundada na ideia de justiça e equidade. Penso no oposto também. Naquilo que coloca o cidadão em risco, que o exclui, que o antagoniza - o agoniza. Conhecidos que são os desequilíbrios do paradigma Americano, Obama procura mais um mandato para avançar as grandes causas jamais pensadas pela matriz política e cultural dos Estados Unidos. A referência a Socialismo nos EUA tem uma conotação ácida, proibida. Faz soar o alarme de "economias de direcção central", faz arrepiar os corredores académicos de Chicago e relembra fitas que alertavam para a chegada dos Russos. No entanto, não conheço país mais socialista do que os Estados Unidos. Mas quando uso o conceito socialista de um modo tão livre, rogo a vossa flexibilidade conceptual. Refiro-me a uma outra variante, porventura uma estirpe mais importante que a centralidade política. Arrisco uma nova definição para facilitar a sua aceitação. Se tivesse de travar-me de razões com um compatriota Americano, apresentaria a coisa de um modo suave. Utilizaria uma expressão suave, uma versão ideologicamente light, diet. Seria uma doutrina fundada na livre associação de cidadãos em prol de projectos comunitários. A sociedade civil em todo o seu esplendor. A ironia a que assistimos tem a ver com essa inversão de papéis ideológicos e programáticos. Enquanto que em Portugal o Estado Social está a ser desmontado, nos EUA Barack Obama procura plantar as primeiras sementes de um Estado tendencialmente Social. Um país que definitivamente se coloca ao serviço de todos cidadãos. O Obamacare será uma parte apenas de um corpo de intervenção maior. Uma visão que universaliza os princípios subjacentes à própria independência do país, os valores que levaram ao rompimento com a paternidade colonialista. Neste momento de convulsão, não serve de conforto nem conserto para os males Portugueses, as soluções que venham a ser escolhidas pelos Americanos. Mas para que não restem dúvidas. Há quem procure defender o que outros querem enjeitar.
Mendo Henriques 5 Nov 12

Dívida: Os Primeiros 5000 Anos, do antropólogo David Graeber é um livro muito especial. Quase todos os problemas que levanta são pertinentes. Quase todas as respostas que dá, são erradas ou enviesadas. O autor tem um raciocínio muito ideológico, sempre a querer provar a sua tese anarquista de que a sociedade nos corrompe. É, também, um livro invulgar, uma exposição sobre a construção humana da ideia de valor e dos interesses políticos que a acompanham. Analisa práticas desde as crenças religiosas sobre os deveres, até às noções positivistas de "dívida social", e as ligações entre os estados e os mercados.
Em Filosofia do Dinheiro, escreveu Georg Simmel que " a troca de produtos não é apenas um fato económico "(52-53). Atribuímos um valor aos objetos, como se fosse uma qualidade inerente às relações sociais. Graeber faz alguma síntese das doutrinas conhecidas sobre valor, troca e dinheiro, mas traz novidades. Considera a dívida como a quantificação de uma promessa e de uma obrigação com uma ameaça de violência por detrás, em contraste com a obrigação na ajuda mútua. Começa por dizer que a humanidade está em dívida absoluta para com o cosmos, por muito descabida que esta noção pareça nas sociedades individualistas. Com este começo, mostra como é difícil “calcular o incalculável", e desafia as teorias correntes da dívida que "culminam em justificações das instituições da “polícia, mercados e estados” (69). Uma abordagem que ultrapassa a noção de sociedade como Estado-nação.
Sobre os fundamentos morais das relações económicas, Graeber aprecia o "comunismo" como o fundamento básico da sociedade. Em Inglês, por exemplo, "obrigado" deriva de um verbo que significa "Vou recordar o que fizeste por mim”(122). Mas extrai daqui conclusões enviesadas sobre o agradecimento como um comportamento da classe média. Distingue entre as economias comerciais e "humanas" (!!!!), as trocas em que o dinheiro atua mais como um lubrificante social que facilita a compra de coisas e arranjos conjugais usados para afirmar o controle masculino sobre as mulheres. Examina, enfim, as formas mais graves de dívida dos países ocidentais, essencialmente a dívida de guerra agregada desde 1790. Sendo os EUA um "complexo militar-industrial", o livro de Graeber serve como um lembrete da "doutrina de projeção de poder global", que conjuga o mal-estar social da dívida e a glorificação da violência económica e política que a sustenta.
Em Dívida, Graeber pretende derrubar muitos conceitos: a troca direta; o mercado livre; e o dinheiro como mercadoria, mas o que mais consegue é chamar a atenção que devem ser repensados. O dinheiro, por exemplo, "não é uma 'coisa', é uma forma matemática de comparar as coisas"(52).
Mesmo sem concordarmos com as teses, ré evidente que o livro tem amplitude histórica e profundidade doutrinária. Afinal, “Os últimos 5000 anos” marca um regresso à "grande ideia" da antropologia que perdera força nas últimas décadas. Os antropólogos eram supostos falar sobre as nossas origens, história e diversidade mas estes assuntos foram capturados por amadores.
Ao combinar vários enquadramentos culturais e nacionais, a grande narrativa de Graeber é uma crónica de como a quantificação e codificação da dívida pode levar à desintegração de grandes civilizações e das soceidades atuais. É um livro que merece leitura urgente em tempo de crises e de dívidas. De “primaveras árabes” no norte de África, movimentos contra a "austeridade" em Portugal, Espanha e Grécia, de mobilizações Occupy Wall Street . Talvez o resumo mais sintético do livro seja a do leitor que escreveu: “Vivemos em uma dúzia de sistemas ao mesmo tempo. O capital domina mas não determina. As possibilidades são infinitas. "
Mendo Henriques 4 Nov 12
Porque estamos sempre a dizer obrigado e desculpe? Tentei dar uma primeira resposta num artigo deste livro que José Barrientos publicou em Madrid
A semântica do “obrigado e desculpe” é muito reveladora. Estamos sempre a dar graças e a agradecer, a pedir desculpa e a reconhecer uma dívida, em todas as línguas. ‘Gracias’ e ‘Perdón’ em espanhol.‘Thank you’ e ‘I am sorry’ em inglês. ‘Merci’ e ‘Pardon’ em francês. ‘Danke’ e ‘Entschuldigung’ ou ‘Es tut mir leid’ em alemão. Estas expressões exprimem os atos de reconhecimento pelos quais estamos "obrigados" ou em dívida para com os outros.
Desde a mais profunda gratidão até à banalidade polida, os atos de reconhecimento começam por ter um caráter gratuito em que se exprime a relação inicial da sociedade entre nós e os outros. Só depois começam a funcionar como um reforço psicológico, ou uma obrigação sociológica de etiqueta, de boas maneiras, rituais que aprofundam a relação em sociedade. Estamos ainda na fase do agradecimento "em que não há palavras para o exprimir" nem "há dinheiro que o pague".
Finalmente, intervém a autoridade que institui a obrigação de agradecer. É o caso dos pais que obrigam os filhos ainda crianças a agradecer presentes, retirando o valor ético ao ato mas incutindo-lhes moralidade. A autoridade acaba por adquirir valor jurídico com as dívidas para com os outros, que "não podem deixar de ser pagas" e que o direito codifica e sanciona. E quando os estados, com o aparelho de poder, tomam conta do caso, formalizam-se as dívidas soberanas que nunca se resolvem por si, mas exigem um regresso às origens da sociedade que não se formou para criar dívidas mas para trocar bens e relações.
Esta ligação entre ética e economia é para aprofundar e agradeço sugestões: Lá está: mais um "obrigado".
Mendo Henriques 4 Nov 12

Nos livros de história e ficção ainda se lê que D. Pedro IV foi apenas um rei efémero. Fosse isso verdade, os gregos não o teriam insistentemente procurado para chefiar e estabilizar seu recém-criado país, como explica Carlos Daniel de Castilhos
Mendo Henriques 2 Nov 12

Em 2006, uma discreta editora de Viana do Castelo traduziu o artigo “On bullshit” do filósofo Harry Frankfurt de Universidade de Princeton que escreveu um best seller com esse nome em 2005, ao analisar a massa de asneiras, besteiras, baboseiras, idiotices, lérias, bagatelas, insignificâncias, trampas, e patranhas que surgem no dia a dia.
Uma das caraterísticas mais marcantes da cultura contemporânea é a proliferação da conversa da treta. Todos a escutamos nos media e também não estamos dela isentos. Só não damos grande importância ao caso porque confiamos na nossa capacidade de reconhecer disparates e não nos deixarmos ir atrás deles. Mas o fenómeno despertou a atenção de Frankfurt neste pequenio grande livro.
A diarreia de debates e comentários, que começou com peritos numa área “séria”, alargou-se a uma variedade heterogénea de egos, comentadores desportivos, músicos, astrólogos, jornalistas e socialites, que despoletou na sociedade um à vontade - para falar sobre qualquer tema.
O dramatismo, a linguagem corporal e a entoação com que certos pivots dos Telejornais, usam ao transmitir notícias é do género da treta. Existe uma insuportável Alberta Marques Fernandes que pisca os olhos, franze a sobrancelha, faz esgares com a boca, valorizando a reprovação, a comoção , a alegria estouvada com que dá as notícias, como se a nós nos interessasse os seus choques mais do que notícia. Isto é treta.
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